sábado, 8 de janeiro de 2011

A ALMA DAS COISAS

     Sempre tive uma relação estranha com objetos inanimados. Olho-os muitas vezes com a impressão de que sofrem como nós, de que sentem frio, cansaço, solidão e cãibras.

     Quando eu era rapaz e estudava no Colégio Militar, na Pituba, havia na Praça D.João VI, uma estátua que me intrigava muito. Era uma mulher deitada, com um bebê nos braços. Na verdade, estava apenas recostada. Suas costas de mármore, porém, não estava apoiada em lugar algum. Ficava solta, recostada ao nada, naquela posição incômoda, como se fizesse um exercício abdominal que nunca tinha fim. E o pior, com um bebê nos braços. Sempre me preocupei com ela. Anos e anos depois, continua lá, na mesma posição. Até hoje, quando passso pela Pituba, não posso deixar de observá-la. E meu olhar toca seu corpo imóvel com imensa carga de solidariedade.

     Há alguns anos pensei muito nela, nessa mulher de pedra, ao visitar uma igreja e observar uma estátua que me deixou sem ar. Com o menino Jesus nos braços, aquela imagem da Virgem me falou da sua imobilidade, dos anos e anos passados ali, sem sequer poder virar o rosto para olhar o bebê que carregava, suportando os olhares aflitos dos fiéis sem ter como lhes falar, prisioneira do branco gêsso de que era feita.

     Pode parecer estranho, mas essas coisas me impressionam muito. É verdade. Vivo assim a pensar na alma das coisas. Desde criança, cuidava para que as bonecas das minhas irmãs ficassem em boa posição para não morrerem sufocadas.

     Minhas preocupações são muitas. Como por exemplo, a tampinha de cerveja que está encravada no asfalto bem perto do lugar onde trabalho. Sinto por ela uma pena terrível e uma ternura enorme.Todos os dias, ao atravessar a rua, vejo-a alí, prisioneira do asfalto, imóvel, machucada, ostentando apenas o revestimento de metal, pisoteada por pessoas e carros, coberta de poeira sob o sol escaldante e às vezes, afogada na chuva, ela me parece bastante sofrida, triste e solitária.

     E agora me aparece o tal de Saci. Nosso pobre satélite lançado no espaço. Li que estava perdido, algo saiu errado e ele não fez mais contato. Ninguém sabe por onde anda. Em certas noites, olho para o céu e penso nele, vagando no vazio, seu pequeno corpo de metal, esférico ou cilindrico, enfrentando a solidão escura e gelada do espaço.

     E ainda com esse nome, Saci, meio tupiniquim, meio vira-lata, meio pobre coitado. Mais um anti-herói brasileiro.

     É, acho que é por isso que me inspira tanta compaixão - perdido no espaço...

      

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